E depois de três milênios sem colocar nada decente aqui, vai mais  uma playlist bem Made In Brasil, intitulada Tutti hablan portuguese brasileiro. Não tem só MPB aí, tem muita coisa misturada, do novo ao velho, bem gente como a gente mesmo.



Com papel e caneta crio planos. Quando levanto a mão os destruo. Puf. Tudo se torna poeira. A profecia de Marx se torna verdadeira, e o que é sólido, realmente, se desmancha no ar.

Ambiciosa. Sonhadora. Criativa. A menina que aprendi ser, sempre sorri com os olhos para tocar o coração das pessoas, mas o seu próprio está fora de alcance. "A solidão é a ausência de si mesmo", fui tantas e serei tantas personas de quem quero ser, mas oca por eu não me pertencer.

O sorriso característico é treino. Olhares minuciosamente trabalhados no espelho. Músculos da boca repuxando para cima, em sincronia com o brilho nos olhos. Os cristais das lágrimas refletem o arco- íris para quem quer ver, afinal, é muito mais fácil disfarçar a minha terra arrasada com meus dentes. A alegria é fácil de ser vendida, é o pote de ouro guardado pelo duende que todo mundo jura que viu,  mas nunca reivindicou para si. Crio bolhas nesse mercado só para fazer alguém feliz.

Então sigo, com meu papel e caneta, criando planos. Montando o personagem de quem fingirei ser. É nesse momento que levanto os olhos do papel, e  vejo reflexo fraco e translúcido na janela. 
Sorrio.
Levanto a mão, e..

Puf.


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Essa noite o céu rachou em dois. Em cima da minha cabeça, um infinito cobertor negro, sem lua e nenhuma outra companha visível.  Sob meus pés, a terra se estendia e rolava para baixo do mirante, a sua peculiar galáxia surpreendia com a união dos sois e das luas. Essas que roubam a cena, finalmente dividindo o mesmo espetáculo em igualdade. E tendo eu e as reluzentes estrelas do chão como plateia.


No horizonte, os grandes opostos se encontraram, e deram as mãos. Juntos seguiram pela fronteira do visível, como rios de diferentes densidades que não se misturam, mas são, naquele momento, indissociáveis. Como irmãos. Como amantes. Cada um único com a sua própria complexidade, peculiaridade e imperfeições naturais ou tecnológicas, porém inegavelmente mais belos juntos.



Ei, você!
Quanto tempo! Estivemos juntas por muito tempo, não é mesmo?
Me lembro do dia que nos conhecemos.
Após a aula, minha avó me levara em um salão pela primeira vez. Eu estava lá porque no dia anterior uma menina na escola havia me chamado de "cresbunda" (o cabelo que eu tinha na cabeça, ela tinha na bunda), e prática como a minha avó sempre foi, ela ergueu minha cabeça cabisbaixa, e me olhou nos olhos e disse "Levanta a cabeça, a gente vai resolver isso", do jeito que minha avó sabia, ela tomou as rédeas da situação.
Depois de duas horas sentada numa cadeira giratória, me sentindo um pouco intimidada no salão chique, tentei seguir as orientações "Senta reta e fica bem quietinha". Meus olhos e a cabeça ardiam do produto verde gosmento que uma moça de sorriso gentil passou no meu cabelo, e foi aí que eu te conheci.
Na distância de dois braços de mim, me encarando do outro lado do espelho, nós nos saudamos com um sorriso largo. Eu no auge dos meus seis anos de idade, senti que finalmente me enquadraria. Não havia nenhuma ondulação que me separava da "igualdade" e do "belo". A professora finalmente poderia passar a mão no meu cabelo, como ela fazia com todas as outras meninas. Desse dia em diante, nos tornamos inseparáveis, não é mesmo?!
Eu lembro de você, quando periodicamente mediamos com raiva a raiz no espelho, não vendo a hora de passar o produto "mágico" de novo. Você esteve comigo quando ainda assim, faziam piada comigo na escola, porque meu cabelo não era "baixo o suficiente". Foi aí que começamos o combo relaxamento+ progressiva a cada dois meses, junto com a escova e prancha, toda semana.
Juntas, olhávamos encantadas os longos cabelos naturalmente lisos ou levemente ondulados das amigas. No fim, sempre batia aquela pontada que nunca seríamos assim.
Com você, as piscinas ficaram cada vez mais raras com o passar dos anos, assim como danças na chuva. Nas férias passar uma semana na praia era basicamente um pesadelo capilar, afinal significava sete dias com tudo aquilo que eu tinha na cabeça preso, num coque firme.
Lembra quando tínhamos que mapear na semana quando ia marcar a data do salão? Porque tinha judô duas vezes na semana, e isso significava dolorosamente "adeus, escova" e ela tinha que durar o máximo possível.
Nós tivemos nossas divergências, como no dia em que você concordou com a minha colega quando ela disse " X é bonita, mas ela tem que dar um jeito no cabelo dela. Horrível, parece bombril."
Ou quando minha amiga discordou da descrição do personagem que eu havia escrito dela porque o cabelo da personagem "parecia crespo".
Você leu comigo todas aquelas sagas de jovens de "Longos cabelos castanhos" que prendiam preguiçosamente o cabelo em um coque frouxo e a pele era alva.
Você viu comigo todos os filmes, em que negras eram as empregadas, as melhores amigas de duas falas, ou a cabelereira descolada. Você, sussurrou no meu ouvido "Ei, isso é normal. Elas não são bonitas o suficiente", tentando acalmar o descontentamento e minha inconformação.
Você repetiu essa frase, várias vezes, até que eu passei acreditar. Afinal, eu só via isso. Eu só conseguia perceber meu redor na sua verdade. Amaldiçoei dezenas de vezes meus antepassados com ira, por culpa deles eu era assim. Minha pele era escura demais. Meu cabelo duro demais. A boca muito grande. O quadril muito largo. Você do outro lado do espelho, confirmava tudo isso.
Precisaram de algumas várias aulas de histórias sobre a continente africano, de aulas de geografia sobre desigualdade, aulas de português com professoras que falavam sobre preconceito, sobre padrão de beleza eurocêntrico para eu ver, a verdade. A verdade que você estava errada. O tempo todo.
E me perdoe o palavrão ,mas PUTX* MERDA, foi muito quando essa ficha caiu. Na mesma época, em que comecei a ver mulheres abraçando o seu corpo. Levantando a bandeira da negritude e sim, que o afro é lindo e é PODER.
O engraçado foi, quando fomos relaxar o cabelo mais uma vez, como sinal dos deuses, que adoram ensinar por tragédia, minha cabeça foi queimada brutalmente pelo produto. Você tentou me acalmar, porque as feridas não permitiam eu pentear o meu cabelo, porque sangrava cada vez que tentava ajeitá-lo. Foi então, que vi, que nós duas juntas não dava mais certo.
Dois anos atrás eu decidi, lhe dizer adeus. Foi difícil tomar essa decisão, mas foi extremamente libertador, você não dominava, apenas meu corpo, e sim minha mente e meu comportamento. A caminhada foi árdua, descobri que 13 anos se diminuindo, e com autoconfiança abalada precisa de um esforço danado para criar uma base mais sólida, precisei estudar muito e de muita ajuda. Mas hoje, sem qualquer traço de você, sou mais do que qualquer dia fui. A transição capilar me permitiu ver a importância de se perceber como negra, de levantar a bandeira dos meus ancestrais, de exaltá-los pela sua resistência, empoderamento é uma coisa linda, você não tem noção.
Envio, essa carta para o passado, para as fotografias antigas, por que você não pertence no meu presente e nem mesmo no meu futuro. Afinal, não há alegria maior do que olhar o meu reflexo e finalmente me ver, me enxergar, por fora, como reflexo de dentro, e melhor sem qualquer fragmento de você.
Então, um beijo para a Ana( lisa), amônia, guanidina, para meus preconceitos, para o secador e chapinha, não quero ver vocês nunca mais!




A playlist de hoje não tem música, mas tem muito filme. Aqui estão filmes que vão estrear,estrearam (mas por algum motivo não foram muito populares) e filmes antigos para ninguém esquecer de apreciar a bela arte do cinema!
Essa lista é perfeita para quem sempre que ver um filme novo, mas na hora H esquece todas as opções.Não quero que você recorra a uma figurinha repetida no baralho só para matar o tempo.

Então, vai lá! Aperte o play e divirta-se!



  Vários objetos possuem grande carga emocional, eles representam pessoas, momentos, sentimentos. Seja uma pedra, uma flor, um broche ou um vaso. Porém, de todos as coisas existentes que carregam memória, as minhas preferidas são roupas. 
  Aquilo que cobria meu corpo, mas não minha alma, que me acompanhou nos gestos mais ínfimos, ouviu todas as palavras como uma amiga paciente,  presenciou todos os sorrisos, caretas, constrangimentos e até mesmo lágrimas.
  Comigo, ela entrou em contato com poeira, molhos, terra e  líquidos suspeitos, na mesma intensidade. E as vezes, apesar das tentativas de  apertar Ctrl+alt+del, e apagar qualquer fragmento do que foi vivido,não é possível,, por mais que esse desejo seja extremamente válido, pois assim como eu, ela foi manchada permanentemente pelas memórias.

  É por isso, que de todos os objetos da minha vida, as roupas são tão queridas. Elas são fragmentos de um espaço tempo passado. São figurantes de um filme, que ninguém gravou. Espectadoras de primeira mão da minha vida. Vesti-las é como entrar dentro de uma fotografia, é voltar no tempo caminhando para futuro, criar novas memórias sem esquecer tudo que passou. E estranhamente, há um grande conforto saber disso.





Música brasileira é igual café para servidor público, indispensável. Então, vai aqui aquela coleção de música Made In Brasil que são fundamentais para acalentar e alegrar o nosso dia, no mesmo naipe daquele cafezinho de final de tarde.




Não quero mais o seu amor.
Não.
Chega.
Basta.

Dizem: "Deve-se abraçar e aceitar todas as formas de amor," mas esse? Há! Não quero mais.
Não quero contaminar minha felicidade com o medo, meus sorrisos com lágrimas,meus passos com receio.  Estou cansada de fingir que não é nada demais, maquiar a minha dor, humilhação e raiva, sobretudo me enganar, sobre a incoerência desses sentimentos.

Ouvi muitas vezes,no passar dos anos,que a forma mais pura de amor é aquela sentida de pais para filhos. É um amor que consome, capaz mudar suas prioridades, a ponto de sacrificar tudo em prol da felicidade e  bem-estar de um indivíduo. Porém, não consigo entender como esse amor absoluto e irrevogável pode ceder a violência psicológica e física.

Minha cabeça não consegue entender plenamente como a pessoa capaz de me inspirar - quem me ensinou a nadar,a somar 2+2, a dirigir e dar um belo gancho de esquerda- pode ser quem mais temo. Engraçado, para não dizer trágico, como se apresenta essa dualidade.

O viés que tomo nesse texto, é exclusivamente em relação a paternidade. Nós vivemos numa sociedade patriarcal, machista ,a qual empodera o homem a fazer o quê quiser, quando quiser, e essa "autoridade" se estende a vida familiar. Filhos e esposas são o alvo fácil por quê na hierarquia velada estabelecida eles estão numa escala inferior ao homem.

O amor de pais para filhos é extremo, mas a moral e o padrão aceito pela sociedade em que vivemos também é. Meninos e meninas foram criados para se submeter a vontade do patriarca, aos homens de forma complementar lhes foi ensinado como assumir esse posto. O bizarro é que para esse exercício de poder há um conjunto de fatores que contornam a situação, ao invés de confrontá-la. Dessa forma, há negação do abuso,ou relativização mudança de comportamento, e anulação de sentimentos conflitante e de autoestima.*

Claro, esses dois retratos não são a regra, só por que estou falando não significa que em todas as famílias são assim. Logicamente nem todos os pais são opressores, nem todas as mães são "santas", nem toda família tem relação abusiva,ou todas são perfeitas, e existem muitos pais que não amam o filho mais que a si mesmo. No fim das contas, se eu fosse abordar todas essas variáveis, eu escreveria até amanhã e provavelmente esse texto que é ambíguo, seria mais sem nexo. Meu ponto é na verdade o seguinte:

Minha mente partiu do quanto sociedade influência em nossa formação humana e social, e como ela impacta  nossas ações e maculam nossas emoções. Em tantos pontos a nossa consciência coletiva é preconceituosa e abusiva, e elas não mancham apenas a cerne familiar, mas a nossa relação uns com os outros. Um homem branco, engravatado, da elite paulista, se vê muito mais poderoso e no título de ter direitos,  que a mulher negra de baixa renda que, por acaso, limpa o seu escritório.

Eu não quero um amor manchado pela maledicência da sociedade em que vivo.
Na verdade, não aceito  viver a resignada da maculação dos mais belos sentimentos humanos, e principalmente, renuncio minha habilidade de sofrer em silêncio, subjugada aos excessos e a dualidade do meu progenitor, quem eu amo, ser também meu carcereiro.

Me recuso
Não.
Chega.
Basta.



Esse texto é o backup do texto original, que fora publicado, mas a anta aqui excluiu na hora de corrigir uma vírgula. Então perdi 99% das minhas alterações, corrigirei brutalmente pela manhã, mas deixo publicado.




 Eu não me apaixono por ninguém há um bom tempo. Muito tempo, na verdade, em que o coração não bate mais rápido, quando sei estou perto daquela pessoa. Um pensamento não é capaz de abrir um sorriso de doer as bochechas (tirando quando penso em comida). Não imagino cenários e hipóteses acompanhada, porque acho fofo. Não faço planos possíveis e impossíveis de um futuro à dois. E eu me sinto excepcionalmente bem com isso. 

 Vejo meus amigos sorridentes em seus pares, assim como vejo em outros a dor do fim de um "nós". Em meu eu de hoje sinto um despreparo para lidar com esses dois cenários.  Não quero voltar, ao desejo insano de estar com outra pessoa, de passar por todo o drama de incertezas, e joguinhos. Sei que existem muitos pontos positivos, afinal todo mundo ama amar, mas simplesmente não tenho animo, saco, para me disponibilizar dessa forma. Me sinto completa sem precisar de ninguém para me completar.

 Além disso, tem toda a questão da vulnerabilidade, de se abrir para outra pessoa, se deixar ver. Quando falo, em se deixar ver, significa permitir que outra pessoa te veja por completo, sem amarras, todas as suas qualidades, defeitos e principalmente inseguranças. Confiar não sabendo se valerá a pena. É emocionalmente desgastante ter que se preparar, tanto para uma dor premeditada, a qual você sabia que inevitavelmente ela chegaria, assim como é foda, se pegar desprevenido.

 Mas, amar é isso no final das contas, abrir o coração e não saber se alguém o guardará em um baú à sete chaves, ou jogará na lixeira mais próxima.

Eu me sinto muito bem, em não ter que me preocupar com nenhuma  dessas possibilidades. Pelo menos, não por agora.